Movimento de moradia Leste 1 ganha documentário sobre seus 30 anos


Mutirão Paulo Freire. Foto: Divulgação

Mutirão Paulo Freire. Foto: Divulgação

No ano de 1987, em meio à retomada da democracia brasileira, surge, nas periferias paulistanas, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra Leste 1. O movimento iniciou sua luta por terra e moradia para as famílias de baixa renda fazendo ocupações de terrenos públicos. Suas primeiras três grandes ocupações foram na região do Jardim São Francisco, no distrito São Rafael, no extremo sudeste da capital, divisa com as cidades de Mauá e Santo André. Com a pressão tendo surtido efeito sobre o poder público, o primeiro mutirão aconteceu no Jardim São Francisco em 1989, primeiro ano de mandato da prefeita de São Paulo Luiza Erundina (então do PT), que, além daquele, encampou muitos outros projetos de habitação popular construídos em sistema de mutirão durante seu governo. As unidades habitacionais levaram nove meses para serem concluídas. Depois do sucesso desse primeiro mutirão, o MST Leste 1 estabeleceu uma maneira de se organizar, de lutar e de empreender processos de produção da moradia que acontecem até os dias de hoje. A autogestão, de acordo com membros do movimento, é o caminho de luta e estruturação não só dos mutirões, como da própria organização do MST Leste 1 e dos movimentos aos quais ele está ligado. Formalizada em julho de 2003, a entidade completa esse ano três décadas de luta, e prepara um documentário para sistematizar e contar sua história.

“Pouco antes do surgimento do MST Leste 1– e não temos muito como precisar datas porque essa é uma história de memórias mais pessoais que documentais mesmo –, é importante compreendermos a atuação das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), ligadas à raiz progressista da Igreja Católica. Essas comunidades se inseriam de maneira incrivelmente orgânica em todo o território urbano – não só da cidade de São Paulo –, e com muita força nas periferias. Era nesses espaços que as pessoas eram chamadas para conversas de caráter mais coletivo e local para compreender quais eram suas necessidades e dificuldades. Era muito rápido o entendimento de que a moradia era um problema absolutamente central em relação a quase todos os outros: educação, transporte e mesmo a saúde estavam atrelados ao lugar e maneira de acesso à habitação das pessoas”, conta a arquiteta e documentarista Paula Constante, convidada pelo movimento a realizar o documentário. Constante explica que pequenas reuniões quinzenais foram ganhando proporções imensas e poucos meses depois, igrejas começaram a abrir seus salões (muito maiores que as comunidades) para receber as pessoas que estavam ali entendendo e preparando-se para encampar a luta por moradia. “Por isso, pela regionalidade das CEBs, o movimento que primeiramente foi batizado de S.T. Leste 1 ficou com esse nome porque abrangia somente alguns bairros da Zona Leste da cidade de São Paulo – que era (e continua sendo) incrivelmente densa populacionalmente e extensa em termos de território. Existe também a Leste 2”, ela diz.

A militante Evaniza Rodrigues ressalta que não somente a Leste1, mas muitos outros movimentos estavam se estruturando naquele momento em toda a cidade de São Paulo. “Também foi muito rápida a percepção de que era necessário uni-los para uma luta, não só pelas demandas em si, mas de políticas públicas ligadas à habitação e ao direito à cidade. Atualmente a Leste atua junto à União dos Movimentos de Moradia UMM-SP (surgida àquela época) e à Central de Movimentos Populares (CMP), também ligadas à União Nacional por Moradia Popular, portanto não são inciativas isoladas. Elas incidem em políticas que ultrapassam a esfera local, caminhando para propostas de leis que foram encampadas em todas as esferas: municipal, estadual e federal”, completa.

O documentário de 30 anos do MST Leste 1 está em fase de produção. Até o próximo dia 31 de agosto a equipe estará empenhada em uma campanha de financiamento coletivo para conseguir a verba necessária à edição e finalização do filme.

Leia a seguir a entrevista feita por email com a documentarista Paula Constante.

Como surgiu a ideia do documentário?

O movimento sente uma lacuna no registro histórico de sua atuação há alguns anos, à medida que novos militantes passam a integrá-lo e novos mutirões têm início. Ao final de 2014, iniciou-se um planejamento mais pragmático das atividades de comemoração dos 30 anos da Leste 1, que se completariam em 2017. A ideia de fazer um documentário surgiu. Como o filme Capacetes Coloridos, de minha autoria, continuava a ser usado como instrumento de formação nas atividades do movimento, acabaram por me convidar para tocar esse projeto. As atividades de discussão e primeiras imagens captadas especificamente para esse projeto começaram a ser feitas já no primeiro semestre de 2015.

Com que tipo de registros vocês estão trabalhando: imagens de arquivo, de manifestações, acampamentos, obras em mutirão etc ?

Temos três caminhos, basicamente, de captação/organização de imagens. Os dois primeiros são a captação de novas imagens em atividades realizadas pelo movimento, tais como assembleias, reuniões de coordenação, dias de obra em mutirão, manifestações, ocupações, inscrição no movimento, etc. Além disso, muitas entrevistas têm sido realizadas. Ora coletivas, ora individuais, conforme as disponibilidades que o momento nos traz. Por fim, o último eixo é o da pesquisa em acervo. Muito material se perdeu ao longo dos anos, por pequenos incêndios ou mofo, ou durante mudanças. Coisas que há cerca de uma década pareciam não ter muito valor, hoje procuramos organizar com o máximo de cuidado e carinho possível. A história que elas contam é realmente muito importante para melhor compreensão e análise do nosso presente. O cineasta Julio Wainer, por exemplo, já se juntou a nós disponibilizando seu acervo bruto de vídeos, captados no início da década de 90, de uma ocupação lá do terreno da Juta onde a Leste 1 tem hoje oito mutirões. Mas tanto as fotos existentes quanto o material em vídeo precisam ser digitalizados.

Como é composta a equipe que está fazendo o documentário e de que maneira os membros do Movimento Leste 1 estão trabalhando na produção/concepção do filme?

A equipe é ultra enxuta por uma questão material mesmo. Eu tenho tocado a maioria das atividades de produção e gravação. Quando a gravação precisa de um cuidado mais específico (por exemplo, entrevistas coletivas, em que mais de um microfone de lapela precisa ser monitorado, ou em atividades muito grandes de ocupação, por exemplo, em que mais câmeras são capazes de cobrir melhor todos os eventos), aí contamos com os cinegrafistas Victor Moriyama e Gabi Nu e o técnico de som Bruno Augustin. O movimento participa tão ativamente quanto possível do processo através de reuniões periódicas de uma comissão responsável por essa atividade. Nela já chegamos a mais de 30 pessoas convidadas e fizemos inúmeros debates, conversas e atividades de formação mesmo. Duas dessas reuniões foram importantíssimas para montarmos juntos, em conversa, a linha do tempo do movimento. Foi ali que o roteiro do documentário e a estrutura da pesquisa começaram a existir, de fato.

Entrevista com as ex-mutirantes e membros do movimento Cris, Rose e Mariza. Foto: Divulgação

Entrevista com as ex-mutirantes e membros do movimento Cris, Rose e Mariza. Foto: Divulgação

Fale um pouco do processo de discussão, captação e edição do documentário, das peculiaridades de um trabalho como esse, dos prazeres e dificuldades.

Todas as vezes que o trabalho é coletivo, é sempre, sem exceção, mais prazeroso. As pessoas participam e materializam a produção do documentário juntas, inevitavelmente. Me falam o que pode ser legal de gravar, pedem para sair ou justamente para não sair nas imagens e guiam junto comigo a direção das entrevistas. Faço algumas perguntas, mas em geral falam com muita liberdade sobre os assuntos relacionados ao movimento. As reuniões de discussão também são sempre muito importantes. Tentei montar o que chamamos de pílulas das coisas gravadas para que pudéssemos discutir sobre um material mais específico e não ficarmos somente na teoria e abstração das histórias. Mas esse um processo meio complicado porque já pressupõe um recorte imenso de material. Lembro que uma das pílulas ficou com 17 minutos extraídos de quase 3 horas… Uma entrevista super densa e importante. Mas na hora de discutir, aquilo ficou maçante e logo a atenção se desviou… É uma metodologia de discussão da edição que precisaria evoluir bastante ainda, se fizermos um paralelo ao trabalho de discussão de projeto de arquitetura e cidade que o próprio movimento propõe em casa um de seus projetos.

Qual a importância de um documentário como esse no atual contexto político brasileiro, de desmonte de políticas sociais, especialmente as de habitação, que foram uma das primeiras a serem golpeadas.

Diríamos que fundamental. A história deveria e deve ser o alicerce do saber humano. Mas a história, sabemos, é contada por alguém sempre, isto é, através de um ponto de vista. Em geral, esse ponto de vista é o hegemônico, cheio de intencionalidades e absolutamente poderoso, capaz de massacrar não só esses outros pontos de vista em relação ao que se passou, mas ditar com muita tranquilidade o que deve acontecer daqui pra frente. Esse documentário é um esforço de voz, de insistência no ponto de vista de cá, de quem está trabalhando, de quem está, de fato, produzindo a cidade.

Por que recorrer ao financiamento coletivo? Quais as vantagens e desvantagens desse método? Como está sendo a campanha e quando termina?

Tentamos nesses dois anos todas as sortes de financiamento: editais públicos, editais específicos, instituições internacionais. Em alguns deles chegamos bem perto de conseguir, mas tem muita gente precisando. Na verdade, nem são tão poucos assim os recursos, mas extremamente mal distribuídos, principalmente pelo assunto do documentário, que limitava bastante possíveis fontes. Os custos do trabalho foram reduzidos até o mínimo possível, mas sempre com o cuidado de não haver exploração de nenhum trabalhador, de nenhuma trabalhadora. O movimento bancou, com a contribuição de todas as famílias, esse período mais extenso de trabalho de pesquisa inicial. Mas essa etapa final, já sabíamos que seria a que mais consumiria recursos: o processo de edição em si toma muitas horas de trabalho que, somadas a esforços mais específicos de digitalizações, produção de identidade visual e melhoria do som, precisariam inevitavelmente de mais recursos. O financiamento coletivo acabou sendo a última ferramenta disponível, então cá estamos. A campanha exige um esforço fenomenal de mobilização. E o mais difícil e aterrador é sentir muita gente nesse lugar de “poxa, queria demais poder ajudar, mas não posso…” por conta dessa crise violentíssima para a qual fomos empurrados. Por outro lado, é surpreendente mesmo a emoção de cada contribuição. Para além da angústia da parte vazia do pote (risos), há um alento muito mais profundo em cada ajuda, cada empatia, cada contribuição mesmo. Não só alimenta matrialmente a campanha mas nos enche de um profundo e voraz desejo mesmo de luta, de seguir em frente, de resistência… Sim, a campanha é de TUDO ou NADA, isto é, até 31 de agosto precisamos atingir a primeira meta de R$20.200,00, valor que nos permite resgatar tudo o que foi investido. A segunda meta, de R$26.200,00 não impede que qualquer valor menor seja retirado, mas seria a garantia tão fundamental da qualidade do áudio. A terceira meta é uma espécie de ilusão em deserto, mas uma vez atingida vai garantir, no mínimo a uma capilaridade maior de acesso ao documentário.

Ocupação no Jardim São Francisco. Foto: Divulgação

Ocupação no Jardim São Francisco. Foto: Divulgação

Em que pé está a produção do documentário? Quando e onde ele será lançado? Existe um público-alvo?

Por enquanto, ainda temos muitas imagens a fazer, tanto de entrevistas quanto de cobertura (dos empreendimentos já finalizados, por exemplo). A edição está na primeira etapa de apropriação e pré-organização do material para começarmos a desenhar o chamado primeiro corte. Em princípio, nosso público-alvo são as periferias não só de São Paulo, como do nosso país de maneira geral. Não temos pretensão de participar de festivais ou salas de cinema pagas. No começo isso até foi uma ideia, mas que logo abandonamos por não fazer sentido algum em termos de público mesmo.

O que esperam desse documentário em termos de registro, de discussão e ação política? Por onde o filme deve circular?

O filme deve circular por onde acontecem os debates políticos em torno do direito à cidade e à moradia, assim como de sua produção. Acreditamos que, para além da história mais específica de atuação da Leste 1, existe um debate acerca desse tema que o documentário pretende levantar. Tentaremos tornar esse trabalho o mais acessível universalmente possível, para que pessoas que nunca tenham acessado ou conhecido esses temas, sejam capazes de acompanhá-los e se instrumentalizem com as experiências ali compartilhadas.

Manifestação de militantes do movimento na avenida Paulista. Foto: Divulgação

Manifestação de militantes do movimento na avenida Paulista. Foto: Divulgação

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