“Nunca imaginei que um dia eu fosse viver na rua”


Simone e Derick

Simone e o filho Derick, de um ano. Foto: Arquivo pessoal

Simonekelly da Silva, 36 anos, conheceu a rua por desentendimentos com a família. Com medo de que alguém lhe fizesse mal, na primeira noite longe de casa ficou acordada. Na segunda também. Na terceira também. Só dormiu depois por cansaço. Para as mulheres, a rua é ainda mais difícil – como quase tudo nessa vida vivida sob as violências do machismo.

Na rua, Simonekelly, mais conhecida como Simone ou Tia, sentiu o braço higienista da atual prefeitura de São Paulo, que é capaz de conciliar projetos progressistas de mobilidade urbana com a mais retrógrada política higienista de expulsão das populações vulneráveis dos espaços valorizados da cidade – precisamente dos espaços onde são implantados alguns dos projetos progressistas de mobilidade, como as ciclovias. Na rua, Simone conheceu também a solidariedade de outras mulheres que a ajudaram a sobreviver e a conviver com outras e outros iguais. Conheceu, ainda, o marido, com quem teve Derick, que recentemente completou um ano de vida “e de luta”, como fez questão de enfatizar.

Foi por causa de Derick que ela, após cinco anos, saiu da rua. Com a gravidez em risco – teve descolamento de placenta –  e condições financeiras um pouco mais favoráveis proporcionadas pelo trabalho do companheiro, eles alugaram um quartinho numa pensão perto da Comunidade do Cimento, onde viviam, ao lado do Viaduto Bresser. O quartinho foi casa por pouco mais de um ano, até alguns dias depois da realização dessa entrevista em 27/5. Hoje a casa de Simone é a República Autônoma São Martinho, ocupação sob o Viaduto Guadalajara, no Brás, região central de São Paulo. O aluguel na pensão ficou inviável, mas ainda havia espaço na República, recém-formada por mulheres, homens e crianças em situação de rua. Com a volta de Simone para a ocupa, um grupo de mulheres vem tentando ajudá-la a retomar a profissão de manicure para que continue sustentando o filho e a si mesma.

Foi na rua também que Simone conheceu a luta autônoma. Em 2014, num dia em que as bombas de gás lançadas pelo governador e pelo prefeito choviam sobre o povo do Cimento durante uma tentativa de reintegração de posse, Simone foi socorrida por um dos membros do Coletivo Autônomo dos Trabalhadores Sociais (Catso). Conheceram-se ali, trocaram ideia, tornaram-se amigos. Simone identificou-se com a luta do coletivo e decidiu somar na trincheira. Hoje ela faz parte do Catso e contribui com a gestão coletiva da São Martinho e também da ocupa Alcântara Machado, que fica sob viaduto homônimo na mesma região, além de dar uma força também na Comunidade do Cimento. Com a experiência pessoal das calçadas e descampados que a vida lhe proporcionou, Simone constrói, pouco a pouco, a experiência coletiva da vida autônoma sem patrão, sem hierarquia, e com o respeito por quem, como ela, teve ou tem a rua como espaço de existência. Confira a seguir a entrevista realizada pelo AG com Simone.

 

O início na rua

“Em 2010 foi quando eu conheci a rua por desentendimentos com a minha família. Acabei conhecendo o Guadalajara, que hoje é a ocupa São Martinho. Era um espaço de convivência pra moradores de rua. Tinha serviço social, almoço, banho, lavagem de roupa, quase todos os serviços que apareceram depois na tenda [tendas são equipamentos públicos de acolhimento da população em situação de rua instalados nos baixos de viadutos]. Morei no Guadalajara por dois anos. Aí começou a ter muita briga, muita cachaça e eu não bebo. Aquilo começou a me incomodar muito, porque eu não conseguia dormir, e já é difícil a gente dormir na rua à noite. Eu acordava várias vezes à noite com eles brigando. Foi nesse momento que saí de lá e fui pro Cimento [comunidade formada próxima ao Viaduto Bresser, na região central de São Paulo].”

 

A vida no Cimento

“Um dos caras que morava no Cimento era e ainda é muito meu amigo, o Urubu, e eu fiquei na maloca dele. Foi aí que eu conheci o pai do meu filho, a gente tá junto até hoje. Isso foi em 2013, quando já começou a construir a tenda [Bresser]. Os próprios moradores foram os que começaram a obra. Quando a tenda veio, melhoraram alguns serviços. A gente já não precisava sair daqui [do Cimento] pra ir até lá embaixo no Guadalajara porque aqui já tinha o banho, a lavagem de roupa. Só não tinha almoço. A gente ia lá [no Guadalajara] almoçar. Muitas pessoas que tavam na rua saíram da rua por causa do espaço [tenda] – a assistente social encaminhava um pra um lugar, outro pra outro lugar, pra clínica. Hoje, como eu, existem outros que não tão mais na rua. Tem a sua casa, o seu emprego.”

 

O fechamento da tenda Bresser

“Depois de três anos que a tenda tava funcionando, veio o primeiro fechamento [pela prefeitura, em 2014]. Todo mundo ficou meio que perdido. O espaço ajudava muita gente. Acho que a prefeitura não olha pras pessoas que eles ajudam, pras pessoas que realmente conseguiram sair da rua por causa do espaço que tinha ali. Porque tinha as psicólogas que vinham fazer oficina, que ensinavam a fazer artesanato. Isso ajudava muito as pessoas como forma de terapia, ocupação e até mesmo de renda. Durante o primeiro fechamento, que os funcionários já tinham assinado o aviso prévio, nós todos, população de rua mesmo, tivemos a iniciativa de ir pro direitos humanos [ocuparam a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania] pedir pelos nossos direitos, porque era o único espaço de convivência da população de rua que a gente tinha no bairro e onde realmente era prestado um serviço digno pra população. Não tanto quanto podia, mas ajudou muitas pessoas, e se estivesse aberto ainda estaria ajudando.”

 

Luta 

“Quando a gente ocupou o direitos humanos, entramos num acordo juntos [população em situação de rua]. Porque não tem liderança, né? E eles sempre querem saber quem é o líder. Não existe liderança. A gente sentou todo mundo junto e procuramos a melhor forma de achar uma solução. Não tinha nada a ver com o Catso (Coletivo Autônomo dos Trabalhadores Sociais), porque a gente nem tinha muito conhecimento do coletivo nessa época. O acordo era pra gente, junto, criar um novo projeto, porque pela legislação, não era permitido nada pra morador de rua embaixo do viaduto. Foi quando a gente pediu que o espaço permanecesse aberto, e que se o problema era embaixo do viaduto, que fosse tirado de lá e colocado em outro espaço, mas dentro do bairro, porque a galera já tá acostumada a viver aqui. Um recicla aqui porque tem um ferro velho que compra ali, outro faz um artesanato aqui que vende no farol ali, tem o postinho de saúde. Já tá todo mundo há muitos anos no mesmo ambiente, e pegar esse povo que tá aqui na Mooca e colocar lá na Cidade Tiradentes, eles vão viver do quê? Onde? Até você se habituar em um lugar onde você não conhece ninguém, não sabe nada, demora um tempo. E [pra] quem tá na rua, tem que ser tudo muito rápido, porque você não tem onde cozinhar, não tem um lugar certo pra tomar banho, pra dormir, e longe de tudo fica muito difícil. Mantiveram o espaço aberto até que um novo espaço fosse feito pra que tirasse de baixo do viaduto.”

 

Tenda aberta, diálogo fechado

“Foi aí que começaram as ações da GCM (Guarda Civil Metropolitana). Eles iam e tiravam nossas coisas. Mesmo um pouco antes do primeiro fechamento, a gente saía pra almoçar e quando voltava já não tinha nada, não tinha documento, roupa, barraca, cesta básica, panela, nada. Porque a gente cozinhava ali, fazia um fogão de lenha e fazia almoço e janta. Eles passavam e levavam tudo. [Nas tendas, os pernoites não são permitidos. Por esse motivo, muitas pessoas em situação de rua montam suas barracas ou “malocas” do lado de fora das tendas para ficar mais fácil acessar os serviços oferecidos pelo equipamento]. Às vezes a gente dormia só no papelão, sem cobertor, porque eles passavam e pegavam tudo. Documento já é a maior burocracia pra tirar, tem que agendar, esperar um tempo. E muitas vezes a polícia não quer saber por que você não tem documento. Se você não tem documento eles te jogam na parte de trás do carro e te levam pra delegacia. Isso aconteceu comigo algumas vezes. Eu grávida do meu filho, e a Força Tática chegou e falou ‘cadê o documento?’. Eu disse que tinha perdido. ‘Então entra [no carro] que a gente vai levar você pra averiguação’. Aí eles deixam a gente lá três, quatro horas. Isso aconteceu antes e depois do fechamento da tenda. Com todas essas ações de higienismo a gente começou a reagir. Não, não vão levar nossas roupas, nossos pertences, documentos, nossa comida, nossa panela, porque é nosso direito ter, independente de estar na rua ou não.”

 

Perseguição da prefeitura e do governo do estado

“Foi aí que começaram os conflitos e as perseguições da prefeitura. Foi um período bem longo. Quanto mais a gente falava que não ia deixar eles levarem nossas coisas, aí que eles vinham mesmo. Às vezes eles vinham à noite, quando a gente não esperava. Pra sair todo mundo, não podia. Tinha que ficar sempre dois ou três pra poder cuidar das coisas de todos. Aqueles que não podiam sair, a gente trazia a alimentação, a água, pra eles não ficarem também só tomando conta das nossas coisas sem fazer o que precisavam fazer. A gente se revezava pra poder cuidar das panelas, da cesta básica. Até 2014 foi bem pesada a perseguição deles com a gente. A Polícia Militar levou muitos presos sem nada, sem arma, sem droga, sem nada. Inclusive meu marido foi preso duas vezes pelo mesmo policial. Na segunda vez o juiz interpretou [a prisão] como perseguição e absolveu. Nas duas vezes ele não tinha nada e eles colocaram a quantidade de droga que achavam que tinham que colocar [para incriminar o marido de Simone] e ele acabou ficando preso. Foi bem pesado e bem puxado pra mim aqui sozinha.”

 

Vida de albergue

“Em 2015 eu saí da rua e fui trabalhar dentro do espaço da tenda Alcântara Machado, não mais como convivente, mas como trabalhadora. Foi onde eu mais me conscientizei. Lá a população é um pouco diferente daqui [do Cimento]. É mais rotativo, mas as necessidades são as mesmas da carência. Foi aí que eu vi o que era a prefeitura, de brecar, boicotar ações, mandar os superiores deles – que eram os nossos superiores, no caso – tentar convencer a população que o melhor é ir pro albergue. Mas eu, como população [de rua] que fui, a gente não se encaixa no albergue. Alguns têm ritmo de ditadura: você tem horário pra chegar, levantar, comer, tudo tem que ser dentro dos padrões deles, e muitas vezes o cara que tá na rua não se encaixa nisso. Um dia ele vai chegar um pouco mais atrasado, ou vai tomar uma com os amigos e vai chegar com o cheiro da cerveja ou da cachaça na boca e não vai poder mais entrar [no albergue] e vai ser desligado. Desligado, ele vai pra outro albergue e vai acontecer a mesma coisa. Aí eles te pegam daqui da Mooca e vão te colocar lá na Casa Verde, como eles fizeram comigo, me tiraram daqui [do Brás] e me colocaram lá na Armênia porque era o único lugar onde tinha vaga [de albergue]. Aí eu fui mas fiquei só uma semana, não consegui ficar, saí. É muita gente te monitorando ao mesmo tempo, te vigiando pra você não fazer nada, não pode fumar, não pode deixar as crianças brincarem. Eu não me encaixo em albergue nenhum. Se eu precisar um dia voltar pro albergue, eu volto pra rua, mas não dá pra ficar no albergue. Acho que as pessoas [que dizem que população em situação de rua tem que ficar em albergue] tinham que passar uns três, quatro dias pra ver como funciona. Pra dizer se é ou não é legal.”

 

“Por que essa pessoa não muda de vida?”

“Quando eu não morava na rua, eu olhava e falava ‘nossa, por que essa pessoa tá assim? Nada a ver isso aí, por que ele não muda de vida?’ Eu nunca imaginei que um dia eu fosse viver na rua. Muitas vezes, o que a pessoa viveu, alguma decepção muito grande, ou algum problema muito grande, ou fugiu de algum lugar… a vida ocasionou aquilo e a pessoa não teve força pra mudar ou tentar sair daquilo. Depois que eu comecei a trabalhar [com a população em situação de rua] eu conheci pessoas que estão na rua há dez anos, quinze anos, porque teve uma decepção com a mulher lá atrás e não voltou mais pra casa e nem pra família. As pessoas que não sabem o que é [a rua], ou nunca conviveram, acho que seria bacana que elas viessem ver, conversar… ou nem que não conversasse, mas que fosse ver o dia a dia do que acontece realmente, o que a sociedade, a burguesia, a classe média e alta não tem nem contato e não sabe o que acontece com um morador de rua, com uma criança de rua, as expectativas que ela tem pro futuro.”

 

Medos e aprendizados

“Eu senti muito medo de dormir e alguém mexer comigo [na primeira noite na rua]. Era um lugar diferente. Eu sempre tive minha casa, minha família e era muito estranho. Eu fiquei três dias sem dormir, com medo. Só que no terceiro dia o corpo já não suporta mais. Você pode até conseguir andar, mas sua mente precisa de descanso, e o corpo junto. Então eu acabei dormindo lá no Guadalajara, lá do outro lado, onde hoje é o Ecoponto. Eu dormi sentada. Um senhor de idade, carroceiro, veio dizendo ‘moça, moça, tá tudo bem?’ Eu falei ‘ai, moço, eu preciso descansar, mas eu tenho medo de alguém mexer comigo’. Aí ele falou ‘vem aqui, eu vou te levar ali, você pode dormir, eu vou ficar olhando, ninguém vai mexer com você’. Foi aí que eu descansei. Quando eu acordei, tinha algumas mulheres lá, duas entendidas e uma sapatão. Quando eu levantei e elas viram que eu era mulher também, elas já vieram me acolher, perguntaram ‘moça, você quer comer, quer tomar um banho, quer água, tem suco.’ Eu vi que tem solidariedade mesmo de quem não tem nada pra dividir. Quem tava na miséria tinha a solidariedade de compartilhar o pouco de comida que elas tinham com uma outra companheira que também era mulher, que também tava ali perdida junto com elas. Foi com essas três minas que eu aprendi a sobreviver na rua, a conviver na rua, porque existem as regras de direitos e deveres como na sociedade, e foi onde eu fui crescendo dentro do espaço dos moradores, a gente vai conhecendo, convivendo, respeitando. Existe muito respeito entre eles. Elas foram minha porta de entrada. Em vez de eu voltar pra casa, eu fui vivendo, fui conhecendo, fui pro albergue, saí do albergue, fui pro albergue, saí do albergue, porque a gente não consegue ficar. Eu não sei ser mandada o tempo todo, eu sou muito independente nas minhas atitudes, decisões. Eu consegui sobreviver esse tempo todo sem precisar machucar ninguém e sem ninguém me machucar, graças a deus. Mas tem muita gente que não tem a mesma sorte. Pra mulher é muito mais difícil, ainda mais se a mulher bebe, porque ela bebe e tá no meio dos caras, eles acabam não respeitando, eles acham que têm o direito de pegar em você. São coisas que pra mim não são legais. Mas muitas minas, a maioria, elas sempre têm um marido, mais pelo fato da segurança, pra não estar sozinha. Tem alguns casais de meninas que eu conheci também pelo caminho, e que eles respeitam também, mesmo sendo duas meninas eles não mexem, tem um respeito e tal.”

 

Relacionamentos

“Nesses cinco anos de rua, eu me envolvi só com dois homens. Eu me envolvi com o Wilson, mas acabou não dando certo, a gente tava há quase um ano juntos. Ele tava com outras meninas, eu acabei descobrindo e não gostei disso e larguei dele. Eu já conhecia o pai do meu filho, mas a gente só era amigo e tal. Mas depois de uns trinta dias que eu já estava separada, a gente acabou ficando junto, e hoje já tem três anos que a gente tá junto. A gente já passou por várias dificuldades, mas tamo junto. A gente se conheceu no Cimento. No começo, eu tirei assim como brincadeira, porque eu queria esquecer o outro e achei ele como válvula de escape. Mas nisso tudo eu comecei a gostar dele e a gente foi ficando. Depois de um tempo ele arrumou um emprego e começou a trabalhar. Aí a gente saiu daqui [do Cimento] e alugou o quartinho [numa pensão no Brás].”

 

Perseguição policial

“[Logo depois de alugar o quarto], a gente sempre vinha [pro Cimento] no final de semana, porque a gente ainda não tinha tudo em casa, e pegava doação de alimentação, de roupa, algumas coisas que ajudavam a gente dentro da nossa moradia. E nessas de a gente vim pra cá [pro Cimento], tinha um policial que fazia a ronda no bairro, que toda vez que via [meu marido] fumando um baseado [pela rua], ele enquadrava, mas ele nunca tinha nem droga e nem dinheiro. Mas ele tava sempre arrumadinho e tal. Ele é todo tatuado, ele faz tatuagem também. [E o policial dizia] ‘você é traficante’. E ele falava ‘eu não sou, eu sou trabalhador, eu tenho as tatuagens porque eu sou tatuador.’ Quando foi um dia, o policial falou que queria dinheiro. Ele disse que não tinha, e nesse momento o policial algemou ele, chamou apoio e colocou quatro parangas [tabletes de maconha] e torturou ele pra ele assinar [a confissão de tráfico]. Ele ficou dois meses preso. Como ele não tinha passagem nenhuma, o juiz disse que ele ia responder em liberdade e só tinha que comparecer às audiências. Com trinta dias certinho, a gente aqui de novo, no Cimento, o mesmo policial apareceu de novo. ‘Você tá aqui?! O que aconteceu? Por que te soltaram?’ Ele falou ‘não, eu tô respondendo na rua, moço, tenho os papéis, tudo.’ E o policial deu voz de prisão. Eu perguntei ‘moço, por que você vai levar meu marido? De novo? Não faz isso, por favor!’ Ele disse: ‘ele tá preso, cê quer ir presa também? Se afasta! Se afasta!’ Aí eu me retirei e eles levaram ele preso de novo. Dessa vez apareceu meio quilo [de droga]. Na audiência, o promotor perguntou pra ele ‘nossa, você foi preso duas vezes pelo mesmo policial? O que acontece? Onde você vive? Como foi isso?’ Ele falou ‘a gente mora lá, é um espaço pra convivência de moradores de rua, onde tem banho, televisão, tem serviço social e tal, e toda vez que ele passa lá ele acha que eu tô vendendo droga, mas eu não tenho nada a ver com isso.’ Aí o promotor parece que morava por aqui por perto e falou ‘ahh, é, eu sei onde é.’ Aí ele foi absolvido, porque foi interpretado como perseguição [por parte do policial]. Toda vez que a gente tava aqui e ele [policial] passava, a gente saía, porque ele podia prender de novo. Estragou a vida dele [do marido], porque dependendo do lugar onde você for deixar o currículo, nem te contratam quando veem que você tem passagem [pela polícia].”

 

Estar na rua e tentar trabalhar

“Amiga, é muito difícil. Muitas vezes eles pedem comprovante de residência. Eu sou manicure, e teve alguns salões, depois de uma semana que eu tava lá, não sei se a pessoa me viu no espaço onde tão todos os moradores juntos, ou a pessoa desconfiou, não sei, mas teve dois ou três salões que eu fui trabalhar, eu não consegui ficar um mês. E quando você abre, diz que tá numa situação difícil na rua e tal, eles te mandam embora. Não sei se é medo, receio, preconceito, mas mandam embora.”

 

“Como foi tua saída da rua? A que você atribui essa saída?”

“Eu atribuo ao Derick, meu filho. Depois que eu fiquei grávida, eu tinha medo de ficar com ele…. Assim, durante a gestação eu fiquei um pouco na rua, mas depois de um tempo, eu tive descolamento na placenta, tive alguns problemas sérios e já não podia ficar mais, né? Meu marido já não estava mais preso, já estava trabalhando e tal, e a gente ficou ainda algum tempo [na rua] até juntar dinheiro pra alugar um quarto. No começo foi um pouco difícil. A gente olhava carro, ele fazia bico de pedreiro. A maquininha [de tatuagem] dele tava com problema e não tava dando pra ele tatuar e tal. Até os cinco meses [de gestação], que foi quando eu saí da rua, foi difícil, vários perrengues com ele, mas deu certo. A gente alugou o espaço onde eu tô até hoje, ele conseguiu emprego fixo na manutenção de um convento. [o celular toca, é a cunhada de Simone, que ficou cuidando do Derick enquanto fazíamos a entrevista. O bebê está choroso, sentindo falta da mãe. Simone fala com ele ao telefone e diz que está voltando. A entrevista dura mais dois minutos na frente de uma loja de móveis na avenida Alcântara Machado, depois dura outros três minutos caminhando de volta para a pensão, onde Derick espera pela mãe]”

 

O vínculo com a rua, a luta com a rua

“Então, ele começou a trabalhar, emprego fixo, eu ficava em casa, mas sempre vinha no Cimento. É perto, né? E no começo ainda tem muita ligação, mas aos poucos eu fui me desligando por causa das obrigações da casa, da vida. Mas querendo ou não, eu ainda venho, mesmo hoje, meu filho já com um ano, todo dia eu dou uma passada, nem que seja pra falar ‘oi, gente, tudo bem, e tal?’, e ir embora, mas eu venho. Hoje tem a luta, né, que a gente tá aí buscando uma moradia, então o vínculo é maior. Muitos que tão há pouco tempo [no Cimento] não viveram o que a gente viveu no começo, a opressão, a repressão, a higienização do prefeito, mas eles querem participar [da luta] também, todo mundo quer uma vida melhor.”

 

O corre junto com o Catso e a luta autônoma

“A gente se conheceu no meio de uma das reintegrações que teve em 2014 [no Cimento]. Eles começaram a jogar muita bomba de gás e eu comecei a passar mal, eu e o padre Júlio [Lancellotti], a gente tava perto um do outro, e a bomba caiu no nosso pé e a gente começou a passar mal, e aí veio um dos meninos do coletivo e ajudou a gente. Foi onde a gente começou a amizade e começamos a conversar sobre a vida deles e as nossas. Eu me identifiquei com a luta e comecei a participar das atividades, das reuniões. No meio da gente não tem patrão. A gente dentro da ocupa, o que tiver pra fazer a gente faz. Se tiver que limpar banheiro a gente limpa, lavar a louça, a gente pede doação de comida e de roupa pelo facebook. Sozinho a gente não consegue, porque cada um tem a sua vida particular e a população é muito grande. Eu ajudo um pouco na disciplina da galera, que como eu também vim do meio deles, eles me ouvem bastante. Tem algumas outras pessoas também que eles têm como referência de respeito, educação. Querendo ou não, muitos esquecem isso aí, eles perdem ou deixam lá atrás guardado numa caixinha. E eu ajudo na disciplina deles de limpeza, alimentação, pra não deixar tudo espalhado, bagunçado, ‘comeu, põe o prato lá, lava o prato, não deixa sujeira no fogão e tal’. Tanto na Alcântara quanto na São Martinho, sempre que eu posso eu tô presente. Eu acredito [que isso tudo possa ser feito] com auto-gestão. Tem várias pessoas que tão dentro dos espaços morando que tem várias profissões e muitos já vivem assim, eles são patrões deles mesmos, eles fazem seu trabalho nas ruas, nos centros comerciais, nos faróis, e sobrevivem. Mas precisamos de ajuda de outras pessoas também com material, alimentação, e isso vai se multiplicando. O Alcântara vem se auto-gerindo há quase um ano e tá dando certo. O São Martinho é novo, mas acredito que vai dar certo, porque a galera tem disposição e força de vontade, que é o primeiro passo pra começar.”

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