A história por quem faz: contribuições do conselho editorial


Por Sabrina Duran

O Arquitetura da Gentrificação (AG) terá seu site oficial lançado em setembro. A plataforma online está em vias de finalização, assim como as primeiras reportagens que ampliarão o debate sobre o processo de gentrificação no centro de São Paulo durante as duas últimas administrações municipais. A apuração dará conta também das consequências desse processo, hoje, para cidade e seus moradores, e formas de resistência a futuras tentativas de gentrificação.

Entre tantos desafios para a execução do AG, um dos mais importantes neste momento é encontrar vozes que perpassem, completem e ampliem a dimensão de cada reportagem. Sendo mais objetiva: buscam-se formas de registrar as histórias contidas em cada matéria de tal maneira que estes registros não apenas reforcem, sem repetir, o que está dito na reportagem principal, como também permitam outras análises e conhecimentos que são essenciais para tornar mais completo o quadro apresentado ao leitor.

Entrevistas em vídeo, áudio, fotos, arquivos antigos, documentos. Tudo isso pode ser usado no sentido de conectar o leitor à história que ele está conhecendo – e aqui a palavra “história” é usada como sinônimo de reportagem, de uma realidade transmitida, reportada ao leitor, seja ela qual for.

A pergunta é: como conseguir essa conexão, esse “interesse ativo” do leitor utilizando as ferramentas disponíveis – texto, vídeo, fotos, áudio, etc?

CONSELHO EDITORIAL

Essa dúvida surgiu durante a primeira reunião do conselho editorial do AG formado por leitores. Quando o projeto foi lançado no Catarse, em fins de abril, muitas pessoas escreveram sugerindo temas, bibliografia, propondo parcerias e querendo contribuir com as pesquisas e execução das pautas – e isso ainda é uma constante. Um convite formal foi feito a essas pessoas para comporem um conselho editorial. Para receber todos aqueles que aceitaram o convite e torná-los partícipes do projeto em seu início, meio e fim, foi marcada a primeira reunião presencial do grupo no dia 20 de julho, em São Paulo.

O encontro foi extremamente produtivo, sendo capaz de abarcar e pôr em discussão uma questão central para a equipe de reportagem do AG: se o direito à cidade e políticas públicas de moradia são temas tão essenciais a cada cidadão, por que ainda não entraram (com o devido acolhimento) na agenda de gestores públicos e da sociedade civil? Se veículos de imprensa apontam, com frequência, os efeitos da gentrificação na vida de todos aqueles (sem exceção) que vivem na cidade, por que o tema ainda não gera a comoção necessária capaz de levar a uma reação popular que lote sessões plenárias e as ruas?

Após debates, teorias e exemplos práticos, o aporte feito pelos membros do conselho deu a pista: é preciso ampliar o impacto da apuração deixando que a voz dos próprios agentes das histórias e daqueles que se interessam por ela contem e re-contem o que é apenas mencionado na reportagem geral.

DIVERSIDADE

De alguma forma, ao entrevistar as fontes para uma reportagem, o jornalista já abre espaço para essa história “de quem faz a história”. Mas no contexto do Arquitetura da Gentrificação, pelo menos, esse espaço tem que ser maior, diverso e melhor integrado com a reportagem que traz as informações estruturais do tema apurado. Junto com o diagnóstico, o conselho editorial também aventou um caminho: um maior número de vozes numa reportagem, uma maior riqueza de detalhes humanos talvez seja o elemento capaz de suscitar no leitor mais interesse pelo assunto e, por consequência, mais atenção pública aos temas do direito à moradia, à cidade e à participação popular na construção de políticas públicas.

Não se trata de escrever reportagens mais longas, mas de diversificar o foco das histórias e distribuí-las melhor entre as plataformas – texto, vídeo, áudio, etc -, sem medo de captar e divulgar aquilo que talvez “não pareça notícia” (entre muitas aspas) e que, por isso, numa reportagem mais engessada, seria rejeitado. Também não se trata de lançar um aglomerado de informações e registros em um site, mas de encontrar uma forma de construir as reportagens de modo que cada informação faça sentido sozinha e, principalmente, dentro de um contexto de cruzamento de dados, estejam eles em vídeo, infográficos, textos, imagens, documentos, etc.

Sabemos que a tarefa é complexa. Trata-se de um experimento.

Entre tantas sugestões dadas pelo conselho naquela primeira reunião de julho, algumas foram se juntando num processo de troca de ideias através da lista de emails criada para o grupo. Estas ideias estão ganhando forma e devem ser usadas em uma reportagem sobre a Favela do Moinho que já estamos preparando.

A intenção não é inventar a roda, mas fazê-la girar por outros caminhos interessantes, consistentes e talvez pouco explorados.

RESULTADOS DA INVESTIGAÇÃO E MODOS DE FAZÊ-LA

Outro aporte do conselho editorial do AG na primeira reunião foi a preocupação em hackear, esmiuçar os processos de criação da cidade e das políticas públicas e deixar disponível ao público não apenas os resultados desse hackeamento, como também o próprio processo para realizá-lo.

A primeira reportagem que vamos publicar no site oficial, sobre financiamento de campanha de vereadores da capital paulista, colocará esse conceito em prática, de forma simples e objetiva, permitindo que o leitor faça sua própria apuração, análise e divulgação da notícia.

É por esse caminho que vamos no momento. O AG está em construção, e como toda obra em curso, livre e independente, está aberto a ser melhorado, revisto, mixado e copiado.

*Enquanto o site não está no ar, continue acompanhando este nosso blog de apuração aberta, onde damos detalhes dos temas investigados, fontes de pesquisa, dificuldades e caminhos. Mesmo com o lançamento do site, o blog continuará existindo, mas dentro do site.


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